O sexo que não foi sexo

tons de cinza

Este texto é muito especificamente para as pessoas que, embora se sintam sexualmente violadas, acreditam não terem sofrido estupro. O objetivo é cuidar da angústia e não reconhecimento que esse “limbo” de indefinição pode trazer.

Já ouvi muito mais mulheres do que eu gostaria deslegitimando suas memórias de abuso e seus sentimentos em relação a essas memórias por terem a impressão de que não houve nas pessoas que estiveram com elas a intenção de abusar. Porque elas não disseram não, ou porque disseram sim quando queriam dizer não.

Se eu sinto que não posso chamar o cara de estuprador, como é que eu posso me sentir como se tivesse sido estuprada? Às vezes com direito a síndrome do estresse pós-traumático e tudo.

É um assunto que me parece complexo e delicado, que é tornado ainda mais complicado e delicado pelo nosso sistema penal, que é baseado principalmente na culpa. Na contraposição entre agressor e vítima – e como pode existir um sem existir a outra, e vice-versa?

Há algum tempo, meu filho me perguntou por que a água quente do chuveiro não era quente igual no braço todo.

“Como assim, filho?”

“Porque na mão é fria e no braço é quente.”

Antes de entrar no banho, ele tinha colocado as mãozinhas na água para testar a temperatura. A pergunta dele, portanto, vinha da observação de que a mesma água do chuveiro que, caindo sobre o braço, parecia quente, caindo sobre a mão, parecia fria.

Quando fui explicar ao meu filho o fenômeno que ele estava observando, me peguei usando a palavra ilusão para denominar essa diferença entre a forma como a gente sente a água e a água em si. E isso me deixou muito pensativa.

Afinal, o que é que eu quero dizer quando falo “ilusão”?

Eu uso essa palavra no sentido de erro, confusão, mentira.

Mas é estranho, porque não me parece um engano, uma mentira. É o que eu estou vivenciando na minha pele. A mesma água fria aqui e quente ali. Eu dizer isso – que eu sinto a água fria na minha mão e quente no meu corpo – não é mentira. É verdade. É o que eu sinto.

O fato de a temperatura da água em si não ter mudado não altera o fato de que a nossa pele pode perceber de formas diferentes essa mesma temperatura, e que repetir para mim que a temperatura em si não se altera não muda em nada a forma como eu a percebo na minha pele, e isso, o que eu sinto, não é uma ilusão. É a forma como eu me sinto.

Se eu sinto frio, não adianta dizer que “frio é relativo”, porque eu vou continuar sentindo frio.

Por outro lado, ainda que essa seja a forma como eu me sinto, como o meu contato com o mundo ao meu redor se dá através dos meus sentidos e eu não me vejo com acesso a o que os sentidos de outras pessoas captam, ou como elas interpretam o que captam, é fácil esquecer que talvez existam outras formas de captar e de interpretar.

E acabar caindo na ilusão – agora sim – de que o que eu percebo e interpreto da realidade É a realidade em si. E que (segunda ilusão), se a realidade não corresponde ao que eu percebo dela, então minha percepção, minha interpretação e meus sentimentos não são válidos, não são legítimos, não são reais.

E daí, se alguém vê as coisas de outra forma… ou eu me ofendo profundamente, como se a pessoa estivesse me chamando de louca ou certamente mentindo para mim, ou eu engulo tudo o que sinto e penso, eu própria me achando louca.

Como se não fosse plenamente possível – e provável e corriqueiro – que uma mesma coisa fosse vista de diversas formas diferentes por diversas pessoas diferentes, que um mesmo fato possa ter diferentes interpretações e produzir variadas sensações.

Se eu sou capaz de olhar para o que eu sinto e penso como meu sentimento e meu pensamento, baseados na minha interpretação da realidade, é muito mais fácil tolerar os sentimentos e pensamentos de outra pessoa, entendendo que se baseiam na interpretação dela da realidade.

E, assim, eles já não ameaçam a legitimidade e validade dos meus. Eles podem coexistir.

E nós podemos dialogar de um lugar seguro, em que sentir e pensar diferente não é em si percebido nem como um ato de agressão, nem como anulação do que se passa em mim.

Acredito que  podemos olhar para nós e para os nossos sentimentos diante de memórias de abuso sem o medo de que isso vá transformar a outra pessoa em um abusador.

Podemos dizer que nos sentimos violadas e buscar apoio e empatia para isso (especialmente de nós mesmas) e tratamento, ainda que saibamos que não houve intenção de violentar.

É necessário olhar para a ferida para que possamos tratá-la, e podemos fazer isso independentemente de ela ter sido ou não causada de propósito, ou até que ponto houve consciência, no causador, de que ela estava sendo causada.

Podemos sentir raiva, tristeza e mágoa, ainda que tenha sido “sem querer”. Ainda que sintamos que fomos nós que não fomos claras o suficiente, que não fomos assertivas o suficiente, que não nos defendemos o suficiente. Ainda que a raiva que a gente sinta da gente seja, às vezes, maior do que a que a gente sente da outra pessoa.

Eu poderia aqui entrar nos meandros dos porquês de ser às vezes tão difícil para nós sermos mais claras no nosso “não”. Por que, às vezes dizemos “sim”, mesmo querendo dizer não, e também nos porquês de ser tão comum que homens prossigam com o ato sexual a despeito de perceberem que o “sim” não era um “sim” verdadeiro, ou de que o “não” que deixou de ser dito está lá, pairando no ar, grudado no corpo, no olhar…

Mas não vou, porque, aqui, quero concentrar o meu cuidado na legitimação de uma dor que, muitas vezes, é silenciada pelo medo da acusação que fica implícita quando se fala do que dói. Medo de ferir, de causar constrangimento, de causar mal.

Eu também poderia, aqui, entrar nos meandros dos porquês de as mulheres terem a tendência de cuidar mais da saúde mental e física dos homens ao seu redor do que as delas próprias…

Mas também não vou porque, aqui, quero concentrar meu cuidado no olhar e ouvir o que houve, para que se possa aprender com isso e, talvez, evitar que isso continue a se repetir.

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